Certificação sem exclusão: como preparar pequenos produtores, artesãos e comunidades para novos mercados
Certificações desempenham um papel importante nas cadeias produtivas. Elas podem fortalecer a confiança entre fornecedores e compradores, apoiar processos de conformidade, organizar práticas produtivas e facilitar o acesso a determinados mercados.
Entretanto, existe um desafio que ganha relevância quando observamos a realidade de pequenos produtores, agricultores familiares, artesãos, cooperativas e comunidades tradicionais: como ampliar os níveis de exigência e credibilidade das cadeias sem transformar a própria certificação em uma barreira de entrada? A questão não está em reduzir padrões ou flexibilizar requisitos essenciais, mas em reconhecer que diferentes atores partem de estruturas, recursos e níveis de maturidade muito distintos.
Para muitos pequenos produtores, a dificuldade começa antes mesmo do processo de certificação. Começa pela compreensão do sistema. Certificação, acreditação, auditoria, verificação, declaração de conformidade, organismo certificador, cadeia de custódia, due diligence, norma voluntária e requisito regulatório são conceitos familiares para profissionais de compliance e comércio internacional, mas podem estar muito distantes da realidade de quem está concentrado em produzir. Surge então uma pergunta aparentemente simples: “de qual certificação eu preciso?”.
A resposta, porém, pode depender do setor, do produto, da matéria-prima, do processo produtivo, do país de origem, do mercado de destino e até das exigências particulares de um comprador. Em alguns casos, existe uma obrigação regulatória; em outros, uma certificação é voluntária, mas comercialmente relevante. Há ainda situações nas quais nenhuma certificação específica é necessária, mas determinados documentos, testes ou declarações precisam ser apresentados.
Essa complexidade revela uma importante assimetria de informação. Uma grande empresa pode contratar consultorias, manter equipes jurídicas, acompanhar regulações internacionais e estruturar departamentos dedicados a qualidade, sustentabilidade e conformidade. Um pequeno produtor pode precisar tomar as mesmas decisões sem possuir qualquer uma dessas estruturas. Portanto, quando simplesmente dizemos que determinado fornecedor precisa “se certificar”, podemos estar entregando uma exigência sem oferecer um caminho.
Democratizar o acesso à certificação começa por democratizar a compreensão sobre ela: explicar o que é necessário, por que é necessário, quem pode realizar o processo, quais evidências serão exigidas, quanto tempo pode levar e quais etapas precisam ser cumpridas.
Depois da informação, aparece uma segunda barreira: o custo da adequação. Certificar pode envolver mudanças de processos, organização documental, auditorias, assistência técnica, tecnologia, capacitação, deslocamentos, controles adicionais e manutenção periódica dos requisitos. Esses investimentos podem trazer benefícios relevantes, mas seu peso não é proporcionalmente igual para todos.
Para organizações maiores, determinados custos são incorporados à estrutura operacional. Para um pequeno negócio ou comunidade, podem representar uma parcela significativa da renda disponível. O desafio, portanto, não deveria ser escolher entre rigor e inclusão. Deveria ser encontrar mecanismos para manter a credibilidade dos padrões enquanto se criam condições para que atores menores consigam evoluir até alcançá-los.
Existe ainda outro aspecto fundamental: ausência de documentação estruturada não significa necessariamente ausência de conhecimento, boas práticas ou responsabilidade. Um artesão pode conhecer profundamente uma fibra natural, sua origem e as técnicas adequadas para trabalhá-la.
Uma comunidade pode possuir conhecimento acumulado durante gerações sobre determinado território. Um agricultor familiar pode compreender ciclos produtivos, condições climáticas e características do solo sem nunca ter transformado esse conhecimento em um relatório técnico. O problema surge quando essas informações precisam circular em sistemas formais de mercado. Aquilo que é conhecido pela comunidade precisa, em determinadas situações, ser convertido em registros, documentos e evidências que possam ser compreendidos por compradores, auditores, certificadoras e outros atores da cadeia.
É nesse ponto que tecnologia e inclusão precisam caminhar juntas. Digitalizar não pode significar simplesmente transferir para o pequeno produtor a responsabilidade de preencher sistemas cada vez mais complexos. Uma solução realmente inclusiva precisa considerar conectividade, linguagem, capacitação, experiência digital e disponibilidade de suporte.
Em alguns contextos, uma central de orientação ou assistência técnica pode ser tão importante quanto a própria plataforma. A tecnologia deve diminuir a distância entre a realidade produtiva e os sistemas formais de conformidade, e não criar uma nova camada de dificuldade para quem já enfrenta limitações de acesso a informação, crédito e infraestrutura.
Também é importante reconhecer que certificação não deve ser analisada apenas pelo custo. Quando bem implementados, processos de adequação podem gerar benefícios de gestão, melhorar controles, organizar documentos, aumentar conhecimento sobre a própria cadeia e fortalecer a relação com compradores.
Para pequenos negócios familiares, a valorização da atividade e a melhoria das perspectivas econômicas podem inclusive contribuir para criar melhores condições para a continuidade do ofício entre gerações. Essa relação, entretanto, não é automática: sucessão familiar depende de renda, oportunidades, infraestrutura, identidade e diversos outros fatores. A certificação pode contribuir para esse ambiente, mas não deve ser apresentada como garantia de continuidade.
A dimensão econômica também precisa fazer parte da discussão. Uma cadeia ambientalmente responsável não é necessariamente sustentável se as pessoas que a mantêm permanecem em situação econômica vulnerável. Renda digna, remuneração adequada, acesso a mercados e capacidade de negociação precisam ser consideradas.
Uma comunidade pode atender a excelentes padrões ambientais e, ainda assim, permanecer altamente dependente de um único comprador. Nesse cenário, existe uma fragilidade evidente: se esse comprador reduz a demanda ou encerra a relação comercial, toda a cadeia pode ser afetada. Diversificar mercados, ampliar visibilidade e criar novas conexões comerciais também são formas de construir resiliência.
É por isso que talvez precisemos avançar de um simples “dicionário de certificações” para uma jornada inteligente de preparação. Imagine um pequeno produtor informando o que produz, onde produz e para qual mercado pretende vender. A partir dessas informações, um sistema poderia ajudá-lo a compreender quais requisitos podem ser aplicáveis, quais são obrigatórios ou voluntários, quais certificações fazem sentido para aquela categoria, quais organismos participam do processo, que documentos já estão disponíveis e quais evidências ainda precisam ser construídas.
Em vez de apresentar dezenas de siglas e normas, a tecnologia poderia traduzir complexidade em um caminho: produto → setor → território → mercado de destino → requisito → evidência → adequação → certificação, quando necessária → preparação para o mercado.
Essa visão também ajuda a reposicionar a própria rastreabilidade. Registrar origem é importante, mas organizar progressivamente informações sobre produtores, materiais, processos, lotes, territórios e documentos pode ajudar a construir uma base de evidências antes mesmo de surgir uma exigência específica. Quando chega o momento de buscar uma certificação, responder a uma auditoria ou avaliar um novo mercado, parte da história do produto já está estruturada. O processo deixa de começar do zero cada vez que uma nova demanda aparece.
É nessa perspectiva que o SUIDChain trabalha com a identidade digital de produtos. A proposta não é certificar aquilo que cabe a organismos competentes certificar, nem substituir auditorias ou processos de acreditação. É contribuir para organizar origem, território, autoria, materiais, processos, lotes, documentos e evidências, criando uma estrutura que possa acompanhar o produto ao longo de sua trajetória e apoiar sua preparação para diferentes necessidades e mercados.
O futuro da certificação inclusiva talvez não esteja em exigir menos, mas em preparar melhor. Criar padrões rigorosos continua sendo necessário, mas construir pontes para que pequenos produtores, artesãos e comunidades consigam compreendê-los, produzir evidências e evoluir dentro desses sistemas é igualmente importante.
Porque sustentabilidade não deveria significar selecionar apenas aqueles que já possuem recursos para demonstrá-la. O desafio é construir mecanismos para que boas práticas possam ser identificadas, estruturadas, verificadas, aprimoradas e reconhecidas, permitindo que mais atores estejam preparados para participar de cadeias produtivas cada vez mais transparentes e de mercados cada vez mais exigentes.




